SAUDADES DO NATAL DAQUELE TEMPO
Naqueles tempos, logo nas vésperas do Natal, aquilo de facto era Natal mesmo, tudo estava ajeitado para que nesse tal dia tudo dê certo. Cresci numa zona (Madia-Namarrói) em que as pessoas valorizavam muito mais a natal do que primeiro dia de Janeiro ou simplesmente “Ana Novo”, não sei se justifica-se por ser um lugar onde há muitos seguidores de cristianismo mas mesmo assim havia também os não religiosos que adoravam essa data por significar reconciliação, harmonioso e dia da família – esse “Nhatal”.
Os últimos três meses do ano eram reservados para a preparação da grande festa, os adultos preparavam tudo como Arroz, “Essima”, Galinhas e até fabricavam “Catxasso” que servia de Cervejas nesse tal dia. As pessoas se matavam de tanta ansiedade, organizavam aparelhagens com colunas da minha idade e de tanto tocar chegava “Ocupela”. Os jovens preparavam os “Grifes” – Calças de “Pré-lavadas” e Calções de “Sodja” e até compravam algumas roupas paras as suas Moças e Esposas – aquelas blusas de “Monsera” e capulanas de “Papulina” – àquilo parecia o último dia do mundo.
Ao aproximar o dia do natal, todos caminhos estavam voltadas a minha Zona, os Chapas enchiam de tanta gente que queria passar o dia lá com amigos e famílias e dançar aquelas danças da zona como “Pumpu”, “Cassete” e “Marrimba” – nos gritos de “Owani nwo”.
Um dia antes do natal, todas as Igrejas ficavam bem engraxas e aromáticas, fazia-se todas preparações. Nas manhas, os jovens iam fazer trabalho de caridade, como encher as Pilhas de água - tarefa das mulheres - enquanto os homens iam nas matas a caça de lenhas que serviriam de alimentar a fogueira toda noite. Depois das tarefas concluídas, passavam ao rio, davam um banho, subia a casa e espera de dar 17 hora para que todos fossem a Igreja assistir a Missa, dramas e tudo aquilo que representava o nascimento de Jesus Cristo, o Príncipe da Paz. Mas há outros que iam com dois objectivos, esses assistia-se o sumiço deles e retorciam ao segundo canto de Galo. Eu e outras crianças ficávamos a ninar e só despertávamos dia seguinte, outras nos colos das mamãs.
No próprio dia o ar enchia-se do som dos aparelhos e outras danças, por causa da diversidade, as pessoas optavam nos locais mais aglomerados por seguirem o ritmo, a doçura do “Catxasso” e “Oteka” e mais, dançava-se dois a dois e bebia-se até alvorecer. Eu e outras crianças ficávamos atrás da comida, do “Sumo Jus” e “Oteka doce” só para fartar a barriga e, papagueávamos nas casas das nossas famílias, ora cá, ora acolá, ora “cocóla”. Abeirávamos um tempo em que já não queríamos a comida e somente devorávamos as carnes. A noite os jovens apoderavam-se da festa e ia-se assim o dia de 25 de Dezembro. Hoje remanesceram as lembranças e foi-se o tempo.
Autor: Franklim de Manguião
As lembranças do natal in textos dedicados a minha terra.
24 de Dezembro de 2020.