Franklim de Manguião estudante e sonhador de ser escritor moçambicano

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Cantigas de dezembro

CANTIGA DE DEZEMBRO

Foi-se o ano naquela lentidão da noite
Ficam as lembranças grafadas nas memórias
Tudo que um dia foi mais um dia era
Aquele vivido bom, descrepante, maléfico

Querido dois mil e vinte, gente
De muita penúria, gente vai se rememorar
Das tuas máscaras que tanto herdamos
Naquele mês de Janeiro e Março

Máscaras que esconde estes sorrisos
Naquelas gargalhadas lindíssimas do além
Do confinamento que tanto engendreu
Engendrou angústias, fome, mas não filas

Aha! Ainda mais do distanciamento
Que engendrou distância e saudades
Cada segundo do tempo engraçadas as mãos
Mas ficam as saudades gravadas.

Autor: Franklim de Manguião.
(Cantigas de dezembro) Fomento
31 de Dezembro de 2020.

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Saudades do natal daquele tempo

SAUDADES DO NATAL DAQUELE TEMPO

Naqueles tempos, logo nas vésperas do Natal, aquilo de facto era Natal mesmo, tudo estava ajeitado para que nesse tal dia tudo dê certo. Cresci numa zona (Madia-Namarrói) em que as pessoas valorizavam muito mais a natal do que primeiro dia de Janeiro ou simplesmente “Ana Novo”, não sei se justifica-se por ser um lugar onde há muitos seguidores de cristianismo mas mesmo assim havia também os não religiosos que adoravam essa data por significar reconciliação, harmonioso e dia da família – esse “Nhatal”.

Os últimos três meses do ano eram reservados para a preparação da grande festa, os adultos preparavam tudo como Arroz, “Essima”, Galinhas e até fabricavam “Catxasso” que servia de Cervejas nesse tal dia. As pessoas se matavam de tanta ansiedade, organizavam aparelhagens com colunas da minha idade e de tanto tocar chegava “Ocupela”. Os jovens preparavam os “Grifes” – Calças de “Pré-lavadas” e Calções de “Sodja” e até compravam algumas roupas paras as suas Moças e Esposas – aquelas blusas de “Monsera” e capulanas de “Papulina” – àquilo parecia o último dia do mundo.
Ao aproximar o dia do natal, todos caminhos estavam voltadas a minha Zona, os Chapas enchiam de tanta gente que queria passar o dia lá com amigos e famílias e dançar aquelas danças da zona como “Pumpu”, “Cassete” e “Marrimba” – nos gritos de “Owani nwo”. 

Um dia antes do natal, todas as Igrejas ficavam bem engraxas e aromáticas, fazia-se todas preparações. Nas manhas, os jovens iam fazer trabalho de caridade, como encher as Pilhas de água - tarefa das mulheres - enquanto os homens iam nas matas a caça de lenhas que serviriam de alimentar a fogueira toda noite. Depois das tarefas concluídas, passavam ao rio, davam um banho, subia a casa e espera de dar 17 hora para que todos fossem a Igreja assistir a Missa, dramas e tudo aquilo que representava o nascimento de Jesus Cristo, o Príncipe da Paz. Mas há outros que iam com dois objectivos, esses assistia-se o sumiço deles e retorciam ao segundo canto de Galo. Eu e outras crianças ficávamos a ninar e só despertávamos dia seguinte, outras nos colos das mamãs.

No próprio dia o ar enchia-se do som dos aparelhos e outras danças, por causa da diversidade, as pessoas optavam nos locais mais aglomerados por seguirem o ritmo, a doçura do “Catxasso” e “Oteka” e mais, dançava-se dois a dois e bebia-se até alvorecer. Eu e outras crianças ficávamos atrás da comida, do “Sumo Jus” e “Oteka doce” só para fartar a barriga e, papagueávamos nas casas das nossas famílias, ora cá, ora acolá, ora “cocóla”. Abeirávamos um tempo em que já não queríamos a comida e somente devorávamos as carnes. A noite os jovens apoderavam-se da festa e ia-se assim o dia de 25 de Dezembro. Hoje remanesceram as lembranças e foi-se o tempo.

Autor: Franklim de Manguião
As lembranças do natal in textos dedicados a minha terra.
24 de Dezembro de 2020. 

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Guardo espaço dentro de mim


GUARDO ESPAÇO DENTRO DE MIM

Guardo espaço dentro de mim felizmente
Desta sua história que também é a minha
Geraste aos meus pais também a mim, rainha
Nesta terra belíssimas e de pasmo gente

Esse espaço que guardo em mim
Jamais desaparecerá, pois para mim
És carimbo feita para autenticação
Autenticaste a vida que carrego a cada acção

Deu ensinamentos aos meus pais
Que cuidassem de mim no meu puerícia
Cuidaste de mim na ausência deles e mais

Minhas meditações se espelha a te avó
É contigo que aprendi alguma carícia
Mil vezes carregarei este espaço onde vou.

Autor: Franklim de Manguião
[Arame ferrujado]
Maputo 07 de Dezembro de 2020

Desabafo de um idoso

DESABAFO DE UM IDOSO

Viveria na Europa talvez se eu pudesse
Por ser um lugar que talvez nos valorizam
Angustia-me viver desprezo e tristeza que alisam
Neste deixado até dia do manto que destinasse

Viveria nas Américas talvez se eu pudesse
Talvez por ser onde gente como nós valorizam
Da idade que tenho capacidades se vazam
De cuidados talvez não me faltasse

Fui-me condenado nesta condenação
Quereria ter companhia de mais gente
Sorrir, fazer tudo nesse vaivém da vida quente
Mas apenas o catre me acompanha nessa solidão.

Autor: Franklim de Manguião
[Arame ferrujado]
Maputo 07 de Dezembro de 2020








O tempo desejado

O TEMPO DESEJADO

Fazer-me-ei de parvo e darei-te o tempo
Tempo que tanto e tanto quisestes
Digo tristemente que faças bom uso dela
Porque há que esperar as consequências

Sempre quis te dar mas e consequências
Delas tenho medo, medo este que apavora
Tenho medo de ti perder durante o tempo
Tenho medo voltar para lá ou seguir outro rumo

Há coisas que forcasosamente fazemos
Há coisas que o tempo solucionar não consegue
Espero que este não seja o nosso caso

Espero que ele resolva nossos problemas
Mostre-lhe que o seu lugar é sempre comigo
No amor, em mim tu estás em primeiro lugar

Autor: Ce Cedilha
[As nossas brigas] Maputo 9 de Setembro de 2020.

O meu maior medo

MEU MAIOR MEDO

Meu maior medo sente coração coitado
Olhos por um pouco lacrimejam
Até se podem ouvir os ouvidos ouvem
E a cabeça pensa e o corpo fica arrepiado

Não quero um dia aquecer o sol sozinho
Sozinho não quero sentir o frio dos invernos
Nem caminhar nos caminhos que adejamos
Tão só e sem saber com quem está medo tenho

Não quero que torces nas ironias do mundo
De tão apegado encontro felicidade em te, amada
Mas não quero não achar ela se estiver amargurado

Não quero que um dia se te chamar
O silêncio roncando me responda
O meu maior medo é te perder

Autor: Ce Cedilha
[Quem avisa amigo é]
Maputo, 23 de Novembro de 2020

Não sou perfeito


NÃO SOU PERFEITO

Eu não sou perfeito e nem conheço nenhuma
Alguém patético e tão descuidado
Alguém que desleixa tudo que lhe pertence
Alguém que não controla no mínimo seu amor

Eu não sou perfeito mas sou imperfeito
Cuido de tudo o que é meu no mínimo
Daí encontro a minha responsabilidade
Nisso se esconde os meus pobres ciúmes

Cresci aprendendo do quão importante
Ser nos cuidados das coisas nos pertencem
Embora que tudo cuidado é pouco
Mas mil vezes cuidar pouco que não cuidar

Eu não sou perfeito, tão cimento sou
Em todos lugares que estás só penso
Penso na lista telefónica se não costa um
E mais quero-te toda para meu mundo.

Autor: Ce Cedilha
[O impossível pode se tornar possível]
Maputo, 23 de Novembro de 2020.

Quero te ver mais (2)

QUERO TE VER MAIS (2)

Aquele encontro não sucedeu por acaso
Se caso foi um sonho, não foi o desejado
Foi real realmente e nós tínhamos atestado 
Então quero te ver mais e não no reflexo

Mesmo local ver mais aquele vestir-se
Dissipar-me até do tempo caminhado
No teu humilde rosto ver o sorriso escondido
O tagarelar da boca, seu estilo ímpar de mover-se 

Quero que findemos o princípio deste anzol 
Façamos cintilante plano subsequente
Sentarmo-nos na encruzilhada e procurar onde nasce o sol

E quando a obscuridade tomar os Céus
Quero te acompanhar delicadamente
Nas despedidas ouvir corações a dizerem adeus.

Autor: Franklim de Manguião
[ a vintinha da winn  em quer te ver mais] Maputo.

Condão da Zambézia


CONDÃO DA ZAMBÉZIA

Estonteante, afectuosa e amável terra
Terra de gente hospitaleira, gente organizado
Homens e mulheres nos corações a ética mora 
Diversidade cultural rica e língua mas agregado 

É cá onde banha Zambeze, Lincungo e Marginal 
No bafo dos ventos alísios faz frio ou calor
Habita a Zalala, o Namúli e vê-se do sol seu pôr
Soalho coberto a branco, preto e vermelho ao matinal 

Cá se delicia camarão, caranguejo, a gazela
O arroz, batata-doce, inhames e os frescos feijões
As doces ananases e mangas de Nicoadala

Mais, delicia-se a surra, a copra do coqueiro
O Chá inigualável do Guruè que rompe divisões
E as doçuras das laranjas de Munamuduro.

Autor: Franklim de Manguião.
(As qualidades Zambezianas)

Sabia que ou não sabia


SABIAS QUE OU NÃO SABIA

Ornamentamos o mundo por isso é belíssimo
A lua existe para completar ao sossego do sol
Assim como você existe para me completar

De tanta tristeza nossos corações entristecem
Distantes, os nossos caminhos terão lombas
Sabe, somente tu existe porque eu já existia

Olha o céu, quão azul é dos seus lindos olhos
Escute o silêncio minha voz chamar-te Kátia
Mor Frank cá estou, seu coração responderá

E mais, se as vezes pensar que estás solitária
Não se preocupe pois estarei bem contigo
Naquela brisa que o ar transporta, é só sentir. 

Autor: Ce Cedilha
[Talvez não sou perfeito]
Maputo, 16 de Novembro de 2020