Franklim de Manguião estudante e sonhador de ser escritor moçambicano

segunda-feira, 8 de março de 2021

Saudades moram nas brincadeiras da infância

SAUDADES MORAM NAS BRINCADEIRAS DA INFÂNCIA

Pousado na inércia do espaço, fico morando nas saudades das brincadeiras do tempo que lá se foi e arrancou de mim sem nenhuma piedade. Há um orifício na minha cabeça que o tempo fez e lá estão entulhadas todas as brincadeiras da minha infância. Quando me lembro delas estremeço, os afectos tomam os ossos do meu esqueleto humano, perco a cabeça e entro no delírio que somente me é permitido sair enquanto os olhos banham as lágrimas que se metamorfoseiam de rio Zambeze.

Lembro-me das amizades que arquitectei com as pessoas que hoje ainda se movimentam por aí mas a distância não coadjuva e daquelas que tão cedo partiram mas jamais saíram do meu coração. Essas saudades são mais pesadas que as saudades da pessoa que tem do seu favorito veste que se espatifou há cincos anos. Afinal, “se recordar é viver” então recordar é mais que viver, na verdade há uma necessidade de se acrescentar o advérbio “mais” para robustecer a expressão.

As saudades ainda me fazem lembrar daqueles meninos, eu e os demais, das brincadeiras que tanto fizemos nos arredores do bairro Cololo, aliás, elas ocupavam o maior do nosso tempo naquele ensejo. Logo que alvorecia, corríamos ao campo para pendurar os Papagaios com aquela linha papagueada de Saco, depois corríamos nos Canteiros nos passos galopantes imitando o actor do “vingador da noite”, pois inspirava os nossos espíritos. Ao entardecer planejava-se para irmos “tombuzar” naquelas lindíssimas Valetas de águas pretas ou boleávamos aquele objecto que era encoberto de plásticos, panos e linha de algodão. Esperávamos torcendo até que anoitecesse para galhofarmos de “Saca”, “Polícia-ladrão” e “Esconde-esconde”, somente para elencar algumas brincadeiras. 

Há quem diz que o passou, passou ou mesmo o passado não tem relevância mas esquece que foi graças ao passado que está onde está e é tão infame a desvalorização do mesmo. O tempo passa e as coisas mudam, assim também dizem e de facto o tempo passou e muitas coisas mudaram mas jamais passam as saudades porque a cada ontem produzimos mais e muitas delas para lembrar, assim como hoje e mais um dia do futuro. E é desta forma que as saudades fizeram de mim uma ilha desértica, uma terra sem ninguém, movimentam-se apoderando-se de mais espaço em mim eternamente.

Autor: Franklim de Manguião.
(As saudades e a infância in crónicas do amanhecer e pôr do sol)
Maputo, 08 de Março de 2021.

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